Exposição de Almandrade em São Paulo

 

Francisco Antônio Zorzo Professor da Ufba

A exposição de uma artista plástico como Almandrade, na Caixa Cultural de São Paulo, permite que se avalie a qualidade da produção baiana. Essa é uma excelente oportunidade para se constatar a coerência do projeto estético do multi-artista e festejar o seu reconhecimento nacional.

 

Desde a década de 1970, Almandrade incorporou às suas peças a atitude crítica da arte contemporânea. Tendo uma formação universitária como arquiteto pós-Brasilia, veio a assumir uma posição autônoma em relação à geração anterior, que foi muito festejada na Bahia, composta por artistas tais como Cravo Jr., Scaldaferri e Paraíso, entre outros.

 

Nos primeiros tempos, orientou-se pela abstração construtivista, mas depois derivou por um caminho próprio. Em suas relações com artistas que circulavam ao nível nacional, se aproximou bastante dos criadores Hélio Oiticica e de Lígia Clark e de poetas como Dias Pino e Ferreira Gullar.

 

 

Uma lâmina gilete pendurada dentro de uma garrafa compõe um objeto criado por Almandrade que gerou fértil polêmica. Como interpretar um objeto que incorpora significados múltiplos e cortantes, do vidro e do aço da realidade? Cada objeto construído depende do sentido agregado pelo artista e pelo espectador. Da parte do escultor, uma atribuição de sentido que lhe correspondeu a uma experimentação e a uma reflexão singular. No olhar do expectador a leitura pode ir do vértice do absurdo ao erotismo-vulgar de um corte na pele.

 

No livro que publicou recentemente reunindo análises realizadas no correr de sua trajetória, Escritos sobre Arte, Almandrade deu a pista para muito de seus truques e procedimentos operativos. O importante, no caso da produção desse artista “cult” baiano é que obras e discursos se traduzem um ao outro, bem como conservam sintonia com sua proposta estética. Essas reflexões são importantes, porque a estética engendrada não atendeu a nenhuma chamada gregária no sentido de banalizar a arte baiana.

 

Como pode um objeto ser capaz de, ao mesmo tempo, causar uma fruição direta e uma decodificação crítica? As obras de Almandrade primam pela simplicidade e pela economia de meios. Ele certamente está entre os menos barrocos produtores visuais do período entre os anos 1980 e 2000 no Brasil. Os objetos e pinturas discutiram sempre os conceitos em voga e instalaram a cunha de resistência de um pensamento rigoroso.

 

 

Para deixar mais um exemplo de suas criações, vale retomar um objeto que expôs numa galeria do Rio Vermelho, anos atrás. Um instrumento quadrado composto de duas peças sobrepostas, uma grande azul e uma pequenina dourada no meio, sendo a primeira delas vazada e riscada com linhas brancas. Esse objeto poético-visual foi denominado “Violão da Bossa Nova”. Ao fazer soar esse violão quadrado soar, Almandrade conduziu, como um mestre, seu olhar reflexivo e solitário sobre os campos das artes e da cultura contemporânea no país.

 

 

Francisco Antônio Zorzo

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Almandrade É uma exposição comemorativa que tem como finalidade documentar cerca de 40 anos de arte do artista plástico Almandrade, Reúne seu trabalho de poemas visuais, pinturas objetos e esculturas. Até 28 de Fevereiro, Terça a domingo das 9h às 21h. Caixa Cultural São Paulo Praça da Sé, 111 (Centro) Tel: (11) 3321-4400 ou 3321-4406

Grátis

 

 

 

 

Almandrade

(esculturas, objetos, pinturas, desenhos, instalação e poemas visuais)

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A mostra é constituída de diversos suportes utilizados por Almandrade. São trabalhos elaborados dentro de princípios e critérios que vêm direcionando a produção do artista, por quase quatro décadas. “O Almandrade capricha nas miniaturas de suas criaturas, cuja nudez implica mudez, límpido limpamento do olho artístico, já cansado da fantástica história da arte deste século interminável, deste milênio infinito.” (Décio Pignatari, 1995). Século que já é passado. O importante é mostrar, mesmo de forma abreviada, o percurso do artista . A coerência e o rigor do artista em lidar com diferentes suportes, incluindo a palavra (poesia), fazem de Almandrade, um pensador que se utiliza desses suportes para produzir reflexões.

A proposta artística de Almandrade convida o espectador a pensar sobre a própria natureza da arte. Depois da passar pelo concretismo e arte conceitual nos anos 70, seu trabalho prossegue na busca de uma linguagem singular, limpa, com um vocabulário gráfico sintético. Aparentemente frias, suas construções estéticas impressionam pelo rigor e pela leveza de suas concepções, marcadas pelo exercício de um saber ao lidar com formas, cores, a matéria e o conceito. Provocam emoções variadas conforme o ponto de vista do observador. Que ninguém duvide: a economia de elementos e de dados não se dá por acaso, configura uma opção estética, inteiramente coerente com a tendência a síntese, ao traço essencial, ao quase vestígio. Um nada, cuja gênese reside na totalidade absoluta. Assim também é a sua poesia.

Esta exposição é um recorte do seu trabalho elaborado em mais de três décadas de utilização do objeto de arte para estimular o pensamento e provocar a reflexão, segundo critério fundamentados na racionalidade, na materialidade e, não por acaso, na economia de dados, sem deixar que conceitos sobreponham ao fazer artístico. Almandrade compromete-se com a pesquisa de linguagens artísticas que envolve artes plásticas, poesia e conceitos. No percurso do artista destaca-se a passagem pelo concretismo e a arte conceitual, nos anos 70, o que contribuiu fortemente com a incessante busca de uma linguagem singular, limpa, de vocabulário gráfico sintético. De certa forma, um trabalho que sempre se diferenciou da arte produzida na Bahia.

O trabalho de Almandrade, tanto pictórico quanto linguístico, vem se impondo, ao longo de todos esses anos, como um lugar de reflexão, solitário e à margem do cenário cultural baiano. Depois dos primeiros ensaios figurativos, no início da década de 70, conquistando uma Menção Honrosa no I Salão Estudantil, em 1972, sua pesquisa plástica se encaminha para o abstracionismo geométrico e para a arte conceitual. Como poeta, mantém contato com a poesia concreta e o poema/processo, produzindo uma série de poemas visuais. Com um estudo mais rigoroso do construtivismo e da Arte Conceitual, sua arte se desenvolve entre a geometria e o conceito. Desenhos em preto-e-branco, objetos e projetos de instalações, essencialmente cerebrais, calcados num procedimento primoroso de tratar questões práticas e conceituais, marcam a produção deste artista na segunda metade da década de 70.

Redescobre a cor no começo dos anos 80 e os trabalhos, quer sejam pinturas ou objetos e esculturas, ganham uma dimensão lúdica, sem perder a coerência e a capacidade de divertir com inteligência.

Um escultor que trabalha com a cor e com o espaço e um pintor que medita sobre a forma, o traço e a cor no plano da tela. A arte de Almandrade dialoga com certas referências da modernidades, reinventando novas leituras.

O artista ainda completa “É permitido o devaneio, e ele dá sentido àquilo que vê”. . Artista plástico e poeta, formado em arquitetura, ele se mostra um artista versátil dentro de sua proposta. Nos seus quase quarenta anos de carreira nas artes visuais caminhou pelo desenho, pintura, escultura, instalações e poesia. Transita entre a bi e a tridimensionalidade, entre a imagem e a palavra de forma fluida. A metamorfose de uma para outra às vezes não se completa e mesmo observando duas formas de expressão distintas elas parecem falar a mesma língua.

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Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade) Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; “Em Busca da Essência” – mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista “Semiótica” em 1974. Realizou cerca de vinte exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 1997; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82. Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986. Editou os livretos de poesias e/ou trabalhos visuais: “O Sacrifício do Sentido”, “Obscuridades do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno” e Arquitetura de Algodão”. Prêmio Copene de cultura e arte, 1997. Tem trabalhos em vários acervos particulares e públicos, como: Museu de Arte Moderna da Bahia e Pinacoteca Municipal de São Paulo.

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